Saudade e fome de presença


Saudade é quando a gente espera por alguém?  Ou é quando não encontramos nada além de nós mesmo? É quando alguém é tão perto e tão longe ao mesmo tempo? Ou é quando a “memória ama”? Porque em qualquer uma dessas circunstâncias saudade parece nostalgia.
Saudade de companhia para a vida. Saudade de partilhar a vida, saudade de mais que beijos e abraços, de mais que proximidade de corpos. Saudade de olhares, do saber quando um ou outro se cala ou quando ambos olham de soslaio. Saudade de conversas... de planejar, de sonhar junto. Saudade de reciprocidade. Saudade que não é desejo de “simbiose com”, mas é fome de presença. Fome de presença de amor, de que sobre um amor sepultado “nasça outro ainda mais robusto e forte”.
Mas vem a fome... Fome de passar com alguém o dia todo, todo o dia, nu e cru, sem viagens, sem fugas, só no nada a fazer junto (ou até no tudo do cotidiano), só no cara a cara – se a afeição permanece... aí a fome é de passar a vida toda ao lado desse alguém!
E daí, volta a saudade... E saudade não é também anúncio de um novo tempo e fome da presença do novo? Novo tempo porque é afastamento ou perda – de pessoas ou coisas amadas –, fazendo restar apenas o reajuste da vida sem o objeto do amor; obrigando a enfrentar a vida, a aprender a ausência. Resta então ter a fome da presença do novo, do novo de si... Mas..., não obstante, vem a saudade... Saudade de conversas até o amanhecer sem ouvir dizer: “depois a gente se fala mais porque agora tenho que fazer outra coisa”. Claro, todos tem o direito de estarem cansados, todos tem o direito da sua individuação e individualidade e solidão, contudo, a saudade aqui junta-se com uma fome: fome de encontro transcendental – quando duas almas se encontram e o ápice disso é o toque dos corpos, carícias recíprocas e olhares desvelados, revelados – eles falam sem voz, falam por si e sobre si mesmos e a outra alma lê, sem nada perguntar, por tudo já saber e entender e compreender. Saudade e fome de quando alguém contempla sua nudez, a nudez de alma e diz: “te aceito e recebo mesmo assim” – podendo até falar disso: “que chato” ou “que desastroso, temeroso, assustador”... 
No fundo, todos temos essa fome, fome de encontro, fome que é desejo de autenticidade, fome que é desejo de mostrar-se, desnudar-se e ser aceito e ter, usando termos agostinianos, “os membros agradáveis aos abraços da carne”. Saudade pode ser verdinha assim... porque esperança..., porque guardada para alguém.
É... Isso tudo pode ser apenas sonho, mas, nas palavras de Adélia Prado,
“O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre”.
Vamos sonhando, ”porque sonho não morre” e assim, enquanto ele vive, a gente vai vivendo com ele! (Suelen Nery dos Santos)