Amor ou Paixão?


Será que as loucuras que dizemos cometer somente porque amamos vem mesmo do amor, ou é apenas fruto do fato de colocarmos nossa razão à subserviência da emoção? Ou melhor, à subserviência de nosso sentimento de dependência, ou de nossa co-dependência? Costumamos misturar amor com emoção e amor é também razão, aliás, talvez, razão na maior parte do tempo, porque quando a paixão se for, não deve ficar nada do que “restou”, mas sim, ficar o que se “amou”. Já a paixão... esta desnorteia, desgoverna, irracionaliza, faz perder a cabeça, é predomínio de emoção... Ah..., o amor... este... é o tempo que faz, que o constrói, que o forma, que o lapida e que traz o engrandecimento da razão e é sim, regado e deliciosamente enfeitado de emoção (ou seriam emoções?). O amor é convívio, convivência, é flor, é cheiro, não cheiro, é dor, é cor, é cinza, nublado, sol, chuva, tempestade, casaco, roupa de banho, nudez e não o nu, intensidade sucessiva no tudo dos altos e dos baixos, é o “der e vier”, é o “cara a tapa”, é a face, é o ser. A paixão é agora e o agora, nada de tempo, tudo ao mesmo tempo no momento, vivacidade, o nu e não nudez, é máscara, movimento, “intensidade de temporada” dos altos. “Paixão é acertar com a pessoa errada e vê-la ir embora, amar é errar com a pessoa certa e mesmo assim, vê-la ficar” (Ludwig Plateau). Paixão é avessa ao amor? Não! Somente parte dele. “Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura” (Nietzsche). A paixão cria ideais e sustenta mitos e faz ao outro um imperativo: “Cumpra isso, seja! Seja isso e aquilo, seja tudo que sempre sonhei”, “Seja tudo o que idealizo”, sem se dar conta do quão cruel pode estar sendo. A paixão, para não morrer (porque é lógico que ela quer continuar viva e deseja a esteticidade do eterno, do para sempre) impõe ao seu objeto de desejos limites, provas, “não toques, não proves, não sejas, retires, ponhas, não faça, não fale, seja...”. O amor provoca saudade não da superficialidade e da temporalidade presentes na paixão, o amor parece provocar saudade – sentimento mútuo – do cheiro, do sorriso, das manias, do jeito, do cabelo (ou da falta dele), do tudo e ainda é capaz de resistir à maior aridez, aos entraves, à difíceis obstáculos, aos inimagináveis contra tempos - "ossos" de seu ofício, ausência de inspiração de sua arte. Dito por Adélia Prado, amar é estar livre de um monte de bobagem, “amar com distanciamento, sabendo que não é seu, que é a melhor forma de amor [...], amor é uma experiência que, peço a Deus, para que as pessoas vivam em plenitude [...], amar alguém é glorioso [...]. O amor é uma novidade permanente, pois a outra pessoa é surpreendente para você todo santo dia”. A paixão não nos deixa enxergar o “além perfeição”, o “além imagem”, tão necessário para a continuidade de uma relação. Ela retém o ser humano na redoma de vidro, tamanha sua fragilidade, embora seu acontecimento consuma o todo de quem a experimenta. Há algo de avassalador e de tão envolvente na paixão que prende até a quem se achar mais inteligente. Será que há solução para ela? Talvez. Talvez porque depende do fato de o sujeito desejar realmente que o “objeto de seu verbo” se torne predicado, predicativo, ou melhor, substantivo, nomeado com artigo e tudo o mais. E sim! Sim porque a solução pode ser ir adiante, seguir para o amor com tudo o que o suscita e também com todos os seus percalços. "O amorsó é possível pela ideia do Infinito - pelo Infinito introduzido em mim, pelo 'mais' que devasta e desperta o 'menos'..." - Emmanuel Levinas
Suelen Nery dos Santos - 08/fev/2011http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1635339-17665-385,00.html