domingo, 19 de fevereiro de 2012

Porque para ser de alguém...


“Por quê?” – ou “Por que...?” – é uma pergunta que faz parte de nosso cotidiano. Caso não lancemos a dúvida para alguém, é algo que fazemos a nós mesmos, questionando-nos a nosso próprio respeito, sobre situações que vivemos... “Por quê?” é pergunta nem sempre respondida. Escrito desse modo (separado e com acento) parece denotar uma dúvida nefasta, advinda de cansaço, e pode vir seguindo afirmações do tipo: “Você sempre faz isso comigo...!” ou “Você sabe que eu não gosto disso e assim mesmo faz...” ou ainda, “Acabo de vivenciar uma perda...”, “Está tudo dando errado comigo”. Após as constatações... – que nem sempre, claro, estão relacionadas a coisas como acima aludidas, mas também se relacionam a surpresas – vem a indagação (em sua forma de fim de frase): “Por quê?”. Já a escrita “por que?” intenta também alcançar a razão de algo, mas encontra-se no início de uma investigação.

Óbvio, não?! Contudo, é de cunho extremamente desapontador saber que muitos de nós fujamos desses porquês concernentes a nós mesmos. Gastamos muito tempo procurando compreender o que se passa ao redor, a razão de determinadas coisas acontecerem em determinados momentos, ocupando-nos com o que os outros andam fazendo da vida e do mundo, todavia, muito pouco dedicamos à sindicância de nós mesmos. Investigar-nos exige coragem já que, só o fato de parecerem árduas as perguntas, sugere respostas nem sempre realizadoras ou até mesmo satisfatórias (caso, por exemplo, necessitemos de respostas para decisões a serem tomadas ou para angústias a serem solucionadas).

Talvez, já a leitura deste possa gerar em você certa preguiça, bem como arrancar um suspiro que expresse “...ai, para quê isso? Vamos vivendo a vida sem tantas perguntas...”. Assim pode ser bem mais fácil mesmo! Ao ensinar para meus alunos sobre a “atitude filosófica” procuro sempre mostrar que o cardápio de opiniões prontas não será nutritivo para sempre e que haverá momentos nos quais a vida exigirá posicionamentos sem sequer nos proporcionar um conselho de “universitários” para solicitar ajuda. Sempre surge a pergunta: “mas a gente vai ficar questionando ou duvidando de tudo o tempo todo?”. Então respondo que nem todo questionamento é filosófico – no sentido de validade para a existência (como a pergunta sobre a roupa a ser utilizada no primeiro encontro, ou na maquiagem para determinada ocasião, nem na quantidade de gel a se passar para manter a “qualidade” do topete...).

Precisamos é manter a curiosidade de nós mesmos, como “caçadores de nós”. Essa não é mais ou menos a atitude que mantemos quando na conquista de alguém, quando amamos a alguém ou quando admirados – ou em dúvida acerca – de uma personalidade digitamos seu nome no google a fim de saber sobre ela? Interessamo-nos pelo que o outro gosta ou não gosta, pelos hobbies, pelas coisas com as quais nos identificamos com esse outro, por suas qualificações, seu modo de viver a vida etc..

Enfim, acredito que podemos falar como chave para essa necessidade de perguntarmo-nos a nosso respeito que para ser do outro precisamos, antes, ser de nós mesmos! Essa busca por nós pode remeter ao “por quê?” [de fim de frase] que lançamos para a vida, para situações... Todos já ouviram a expressão de que diante de circunstâncias inusitadas devemos perguntar “para quê?” e não “por quê?”. Procurar saber o para quê, a finalidade de algo, implica em perguntar pela gente, com quais “afetos desordenados” precisamos nos confrontar, com quais dificuldades precisamos nos deparar como desafio para melhora, crescimento, aperfeiçoamento. As respostas podem estar mais ao nosso alcance quando “somos de nós mesmos” do que quando, porventura, constituímo-nos em surpresas para nós mesmos...   

Ser da gente sugere que estejamos mais no eixo que fora dele (porque algumas vezes nos encontraremos fora mesmo...). É como a parábola da casa firmada sobre a areia: vieram os ventos e as tempestades, deram de ímpeto contra ela e esta caiu em completa ruína; em contrapartida, aquela construída sobre a rocha denota prudência. A analogia é muito válida. Não é que ser da gente indique ser uma rocha, negando fraquezas, muito antes pelo contrário: que você seja seu remete a um autoconhecimento capaz de saber o que precisa ser mais bem alicerçado. O trocadilho dos porquês – “por quê?” ou “por que...?” – vem aludir ao fato de que você não se pegue lamuriando a respeito do que te ocorre ou do que você é, mas que se encontre – literalmente – buscando seu ponto de equilíbrio, seu domínio próprio, ser uma pessoa de qualidade, de modo que, sendo de quem quer que seja, você não se perca.
Suelen Nery dos Santos