sexta-feira, 8 de julho de 2011

Proezas da solidão

 
beleza da solidão


                É possível ouvir de alguns a respeito da solidão como sendo esta um dos “males do século”. Solidão foi assunto de muitos filósofos ao longo dos tempos, acredita-se, porque sentida pelos mesmos. O termo implica no que comumente denominamos “isolamento”, “sentimento de vazio”, e ainda, segundo a terapeuta e educadora Elaine Lili Fong, “sensação de separatividade e desconexão” com o mundo exterior (pessoas e coisas).
                Solidão é algo que, acredito, todos os seres humanos experimentam em determinados momentos da vida. Como tal, é assunto comum não apenas a uma só pessoa, por outro lado, temido, pouco se fala sobre ele. É o que poderia ser chamado, pela sociologia, de “fato social”, tendo em vista ser um fenômeno que se caracteriza por sua generalidade, isto é, não existe para um único sujeito. Experienciar a solidão, então, não é “privilégio” exclusivo de um indivíduo. Costuma-se até questionar: quem nunca esteve numa festa ou noutro ambiente qualquer rodeado de pessoas e, ainda assim, não se sentiu sozinho (ou, segundo Eugenio Mussak escreveu no artigo "Ficar [bem] sozinho" publicado na Revista Vida Simples, solitário - termo mais adequado em virtude da diferença entre solitário e solidão)? A filosofia nomeia isso de solipsismo (uma espécie de solidão existencial).
                Não obstante o caráter pesado com que se apresenta a solidão quero aqui pontuar suas características positivas. Certo é que não se pode esconder seu lado doloroso e angustiante, como uma experiência do nada. Enquanto “fato social” é um fenômeno digno de atenção daqueles que estudam a sociedade e o ser humano. Há também o lado daqueles que optam viverem sozinhos por diversos motivos – formando o que se chama “tendência single”. No entanto, se bem aproveitado e pensado, o momento de experienciação da solidão pode produzir ótimos resultados.
                A solidão não se constitui apenas como um isolamento – até mesmo quando se sente incompreendido por todos – ou de estar incomunicável com o mundo, como no mito da solidão de Robinson Crusoé. Ser só é saber que tudo pode ser trocado entre as pessoas, menos a própria vida, é a relação com o próprio interior. Isso nada tem a ver com pensamento positivo ou mentalização, tem a ver com “ausência assimilada” como escreveu Carlos Drummond de Andrade. O que isso significa? Santo Inácio de Loyola, para os religiosos, pode ajudar nisso quando fala acerca dos Exercícios Espirituais. Para ele tais Exercícios se constituem de exames de consciência, meditação, contemplação, oração vocal ou mental e outras atividades espirituais. “Porque, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais também se chamam exercícios espirituais os diferentes modos de a pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas e, tendo-as afastado, procurar e encontrar a vontade de Deus, na disposição de sua vida para o bem da mesma pessoa”, segundo Santo Inácio.
                Pode-se perceber e acolher, para quem crê, a ação de divina por meio da escolha por não fugir de si mesmo, procurando trabalhar “afeições desordenadas”. Além disso, a percepção da solidão pode ser um momento de aprendizado de si – não importa a idade, sempre se está aprendendo a respeito de si próprio –, de crescimento, de ficar bem consigo mesmo. Pode-se utilizar desse sentimento para aprender a assumir a própria vida e para o fortalecimento do que se é enquanto pessoa. Estar só é ter a própria companhia, dar atenção, acolher a si mesmo segundo Lili Fong; é “ouvir minha própria voz”, como diz a letra de uma música. Solidão traz sentimento de falta, de ausência de pessoas e, como o próprio poeta já aqui citado, Drummond, lastimamos este sentimento. Contudo, ele parece, no poema “Ausência”, afirmar a superação de tal lamento ao afirmar: “Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
                Poderíamos, certamente, falar muitas outras coisas a respeito da solidão, do modo como ela é uma experiência tão comum e ao mesmo tempo uma dor aguda para alguns e bastante incômoda para outros (ou ambas as coisas). Mas é preciso saber que tendo aprendido que “você não pode estar só, se gostar da pessoa com quem fica quando está sozinho”, não será mais tão difícil enfrentar esse sentimento. Há ainda o aprendizado de que, quando assimilada essa realidade, ninguém a rouba de você. É você tomando as rédeas de sua própria vida! Proezas da solidão...
(Suelen Nery dos Santos)
               Recomendo a leitura do artigo de Eduardo Mussak supracitado: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/059/pensando_bem/conteudo_257613.shtmln
"...QUE MINHA SOLIDÃO ME SIRVA DE COMPANHIA. QUE EU TENHA A CORAGEM DE ME ENFRENTAR. QUE EU SAIBA FICAR COM O NADA E MESMO ASSIM ME SENTIR COMO SE ESTIVESSE PLENA DE TUDO..." (Clarice Lispector)

2 comentários:

  1. GOSTO DE MORAR SOZINHA!
    NÃO ACHO QUE SEJA ''SOLIDÃO'', SÓ ME SINTO BEM MELHOR EM TER TUDO DO MEU JEITO, COM A MINHA SINTÊSE, SÓ ISSO!

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    1. O que desejei propor é exatamente o fato de que existem outras percepções de solidão, claro, isso, filosoficamente falando. Morar sozinha é uma experiência incrível, por certo!!! O mesmo ocorre comigo! E também não me sinto só, não no aspecto do isolamento. Mas, há o âmbito do sermos sozinhos em nossas decisões, em nossos enfrentamentos e no fato de sermos quem somos - enfim, tudo aquilo que diz respeito ao encontro com a gente mesmo, com a nossa própria identidade. Assim, a proposta é a de pensar que quando sabemos encontrar esse lugar de autonomia e identidade, sem que isso represente individualismo exacerbado (porque ele deve existir) e isolamento não saudável, conseguimos ter o encantamento e aprendizado como proeza dessa situação, desse estado - tão nosso e tão necessário.

      Abraço!

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