domingo, 22 de maio de 2011

Expectativas (= esperanças não supridas)


Parece ser necessidade intrínseca do ser humano a necessidade da “confiança em”. Assim, a confiança põe-se como necessária a essa vida em sociedade. Não é possível estabelecer relações íntimas sem a confiança, além disso, o ser humano busca constantemente pela verdade em todas as dimensões de sua vida e isso não poderia ser diferente em suas relações interpessoais. A confiança supõe um ato espontâneo de adesão à uma verdade que alguém nos anuncia. Confiar é pôr o coração na verdade de alguém. Mas como nos relacionamos com inclinações afetivas - a questão da confiança se põe no âmbito interpessoal - a situação parace se complicar.

Quantos certamente não fariam a seguinte afirmação partindo de uma relação com o transcendente, o metafísico: “Confiar em Deus eu confio, agora... nas pessoas... Isso já é pedir demais...”. Quantos já não sofreram decepções, já foram traídos, já esperaram demais e magoaram-se? Há pessoas que, de fato, parecem mostrar-se indignas de confiança, de entrega, de conhecer a subjetividade, a interioridade de outro coração. Por outro lado, a generalização pode nos impedir a experienciação de algo sempre novo e dessa lógica todos sabemos.
Desse modo, a reflexão a ser feita aqui pode partir do aprendizado de nós mesmos, do que esperamos no processo da "confiança em", pois, a maneira mais usual de se lidar com decepções é aderindo ao total descrédito, à falta de segurança com relação ao ser humano e à afirmação do filósofo inglês Thomas Hobbes de que “o homem é lobo do próprio homem”. 
Não obstante, proponho que caminhemos para o aprendizado de que em nossas relações podemos diminuir nossas exigências, nossa espera, nossas expectativas. E essa proposta não visa partir para o âmbito laboral como uma desculpa para maus profissionais, pois, de fato, devemos buscar ser exímios em tudo quanto fizermos. Também não se busca fazer apologia à frouxidão moral. Mas pensemos no fato de estarmos sempre esperando que pessoas – sejam elas próximas, queridas, cônjuges, amigos, quaisquer tipo de lideranças – supram nossas maiores expectativas, que não errem conosco.
Nossa espera pelo melhor de alguém pode partir da crença na conservação de valores, na ética, na moral que acreditamos que outras pessoas possuem, pois eu não sou, exclusivamente, o único ser ético do planeta. No entanto, essa espera não deve imperar no nível da exigência interna de que todos que se aproximarem supram sempre minhas expectativas. Precisamos pensar a partir do fato de que os que estão à nossa volta são pessoas, como eu e como você. São passíveis de falhas, equívocos, muitos dos quais sequer foram propositais. Isso pode nos trazer maleabilidade e amabilidade em nossas afirmações relacionadas a outras pessoas. Alguém pode não falar conosco com o mesmo afã, sorriso e abertura de todos os dias porque pode estar num mau dia, passando por problemas e até mesmo necessitando de algum auxílio – o que nem notamos se estivermos centrados em nosso mundo, nas ofensas recebidas [que os outros podem nem estar sabendo que dirigiram a nós].
Nesse sentido, ao reunirmos indícios para confiar em alguém, devemos ter em mente que essa necessidade de apoio, de entrega e de espera do bem deve ocorrer mais a partir da na sinceridade e na lealdade do outro, que na certeza de que a resposta à nossa confiança irá sempre suprir nossa espera. De tudo ficamos com a ciência de que a confiança se constitui num risco, mas a reciprocidade se torna possível na medida em que “me sei” capaz de amar, de ser sincero e leal para com outrem. Devo pensar a partir de mim: podem outros confiar em mim?, se entregar para mim?, sou eu uma pessoa passível de confiança? 
Podemos sempre pensar um pouco sobre como "sugamos" as pessoas e exigimos por demais a atenção e o amor das mesmas, quando nem mesmo é obrigação de ninguém fornecer isso a nós. Pensar também em como ficamos enfurecidos quando o outro não cumpre com aquilo que criamos como desejo e este outro nem serquer é obrigado a corresponder, pois todos possuem o direito do "não desejo", do "não gostar", do "não querer"..., assim como nós os possuímos.
Algo que ouvi de uma pessoa amada: "o problema não está no amor (ou mesmo na paixão); amar nunca é um problema e sim, nossa carnalidade. A grande questão está no fato de saber como direcionar, como ordenar o amor que temos dentro de nós sem o prejuízo de ninguém". Especialmente quando apaixonados, comportamo-nos como excessivamente desejosos de Eros - de presença, de carícias, de corpo a corpo, de toques, de beijos, de abraços...
Acho que sempre cabe a afirmação do filósofo Emmanuel Levinas de que o outro não é posse nossa, ele é o único que concede um contraditório poder: o poder de nada poder com relação a ele - que é outro, meu alheio, meu externo, "metafísico a mim". A partir da reflexão sobre expectativas, procuremos pensar a respeito de nós mesmos, analisar nossas exigências, nossa capacidade de amar, de ser um sincero apoio para nós mesmos e a partir de nós, com a ausente cobrança dos outros. Expectativas não supridas doem porque são esperanças não cumpridas... Mas as relações ficam mais ricas sem pesadas exigências, pois assim constrói-se melhor o espaço para a liberdade de ambos, permitindo que cada um seja apenas o que é...!
Suelen   Nery dos Santos
"O amor é a coisa mais triste quando se desfaz (como dizia Vinícius) porque ele é idealizado como perfeito demais para se desfazer. [...] Uma fase complicada nos relacionamentos: fazer o relacionamento dar certo a despeito das perspectivas que criamos com relação ao parceiro. Não existe segredo para isso, mas os especialistas aconselham que a honestidade pode ser uma boa saída para evitar frustrações. Ponha as cartas na mesa: deixe claro o que espera da relação e o que está disposto a fazer para ela dar certo – e em que não consegue ceder. Dessa forma, as expectativas tendem a ser mais realistas e não caímos na tentação de querer presumir o que o outro pensa ou deseja. Nem querer que o outro adivinhe o que esperamos dele." (leia também: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/079/grandes_temas/conteudo_450012.shtml)