domingo, 17 de abril de 2011

Abraço: expressão de aceitação

         
          Dizem por aí que a média de dez abraços por dia é necessária para passar o dia bem, com a leveza que a experiência de bons sentimentos traz para a vida. De fato ser envolvido com afeto pelos braços de outra pessoa é algo que remete a um conforto, aconchego. Sendo assim, o abraço está para muito além do toque, abraço é recepção! Quando recebemos pessoas em nossa casa – geralmente recebemos pessoas próximas, convidadas, queridas – trocamos beijos ou abraços. Ambos são símbolo de “boas vindas” e as Sagradas Escrituras falam acerca do ósculo (e da água para lavagem dos pés) na recepção de convivas – o que era muito marcante e importante na cultura do Oriente Médio. E, sociologicamente falando, o beijo possui um significado em cada cultura.
          Desse modo, transferindo para nossa cultura a reflexão sobre o beijo na face, podemos aferir que tal ação é um cumprimento estendido até a pessoas a quem nem queremos tão bem. Por vezes, dependendo do ambiente, pode até partir de um princípio de educação, uma ação dispensada a alguém que se acaba de conhecer, por exemplo.
          No entanto, o abraço parece expressar um âmbito mais afetivo, uma relação mais próxima, uma demonstração de afeto, de recepção, já que é toque. Abraça-se alguém como que para “matar” saudade, para expressar amor, carinho. O abraço, então, pode anunciar aceitação. Como é bom receber um abraço após um momento de briga! Esse abraço pode dizer tanta coisa sem palavras, por uma transferência de sentimentos, do desejo de ter a pessoa por perto. Certamente podem ocorrer abraços não retribuídos, contudo, falamos aqui do abraço recíproco. Nesse sentido, afirmamos que abraçar é ter de outro alguém aceitação – mesmo após a mostra de alguma faceta de nosso modo de ser cuja amabilidade, deleite ou admiração passem longe; mesmo diante de coisas nossas, peculiares, que por vezes, desejamos esconder. Abraço é hospitalidade, recepção, mesmo sem ser consentimento, é o antônimo de rejeição, pois pode dizer: "Eu te recebo mesmo sem concordar ou acatar determinada atitude sua"... Abraço, é calor e conforto, pois é como se ouvíssemos: "Abraça-me e diga que me ama e tudo vai ficar bem...".
         O abraço é terapêutico, é uma espécie de remédio... Abraço é sinal de humanização, é afecto, afecção, na medida em que afeta – e até desperta – sentidos, sentimentos, sensações. O abraço traz sensação de pathos (como os gregos antigos chamavam o amor) e é um pathos que não é patologia, doença, mas "admiração" (o que o termo grego pathos significa). Nesse sentido, abraço traz admiração pelo belo, pelos bons sentimentos, revigora, traz bom humor. Sendo assim, abraço rememora amor. Este sentimento não é aquele de uma interpretação errônea a respeito de Platão, como se não fosse possível de ser alcançado, apenas de vontade, quimera. Marcelo Augusto de Oliveira, diretor da escola de Filosofia Nova Acrópole de Santos (SP), explica que "na visão de Platão o verdadeiro amor é um impulso de vida para a sabedoria e não necessariamente para uma pessoa". Desse modo, já que abraço rememora o amor, o abraço pode fazer as pessoas que se abraçam encontrarem uma força, uma energia, que manifeste um desejo de viver de maneira melhor, uma vez que esse encontro de braços, esse toque físico vindo de pessoas que se estimam mutuamente converte-se em bons desejos para o outro.

          Acredito que se houver algo que possa fundamentar o dito popular de que necessitamos de dez abraços diários, é isso: o abraço nos reconcilia com a vida e como tal traz paz, alívio, sensação de conforto mesmo diante das intempéries da vida e enfrentadas conosco mesmo (afinal, quem nunca briga consigo?); abraço é remetimento ao amor...  Assim, quando abraçados por alguém sentimos alguém dizer: "eu te recebo", "seja bem vindo" – o que pode auxiliar no processo do dizer isso para si mesmo (embora nosso olhar acerca de quem somos não depende do que alguém possa colocar dentro de nós, a aceitação de outrem pode auxiliar no processo da auto construção e da auto aceitação de quem somos, afinal, todos necessitamos de afeto). Tião Rocha, educador popular, antropólogo e folclorista, fundador do Centro Popular da Cultura e Desenvolvimento, afirma que "o afeto, o abraço, o cafuné [...] fazem com que as pessoas sintam mais orgulho de si e as ajudam a sair da linha de baixo, do desprezo, para a de cima, da auto-estima".
          Que você receba tantos abraços diários quantos forem necessários para transmitir força, vigor e melhor: a sensação de ser amado! 
(Suelen Nery dos Santos)

"Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam" (Clarice Lispector)

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