segunda-feira, 14 de março de 2011

Afinal, o que é "amizade"?

          
           Aristóteles, filósofo de Estagira (384-322 a.C.), foi quem buscou aprofundar o sentido desta relação para a vida como um todo e, por isso, pode nos ajudar a responder a pergunta. Aristóteles afirma, na obra Ética a Nicômaco, que a amizade (philia) é “sumamente necessária à vida”, mesmo para aqueles que possuem muitos bens, pois a prosperidade nada é sem o “ensejo de fazer o bem”, “bem” que consiste na “prática de nobres ações”.
            No senso comum amizade é uma palavra que evoca uma relação de confiança. Mas o filósofo parece ir para além disso, e, a fim de alcançar esse sentido, reconhece que a amizade é uma relação de amor. No entanto, pode-se falar acerca da existência de tipos de amizade em Aristóteles, pois as formas de amizade relacionam-se com o objeto do amor ou “coisas estimáveis” e “com respeito a cada uma delas existe um amor mútuo, e os que se amam desejam-se bem a respeito daquilo por que se amam”. Dentre os tipos enumerados e descritos há um mais excelente, entretanto, não se pode anular as outras espécies de amizade em virtude de haver um sentido supremo para tal relação. Por outro lado, é em função de uma amizade excelente que “as outras são reconhecidas, e também contestadas, como amizades”. Neste texto podemos então adquirir um breve saber acerca desses tipos de amizade, analisar que tipo de amigo(a) somos e ainda intentar alcançar um nível mais elevado para nossas relações amistosas
             Aristóteles chega a afirmar que a amizade, em sua excelência, é um equipamento necessário para a felicidade. Mas como alcançar essa excelência numa relação de amizade? A partir deste questionamento podemos então atestar que, para o filósofo, a amizade pode basear-se na utilidade, ou no prazer, ou no bem (denominando assim, os tipos dessa relação). A amizade fundamentada na utilidade diz respeito ao amor com vistas ao que é recebido do outro, isto é, ama-se pelo que é bom para si. A que se fundamenta no prazer dá-se no amor pelas pessoas por serem elas agradáveis para si. Sendo assim, nestas duas formas de amor, ama-se “não na medida em que o outro é a pessoa amada, mas na medida em que é útil ou agradável”. O filósofo estagirita atesta que essas amizades, por não terem o fundamento do amor na pessoa amada por ela mesma, pelo que ela é, são amizades acidentais, que “se dissolvem facilmente”, visto que se alguém, nesse tipo de relação, deixa de ser agradável ou útil, perde-se o sentido do amor.
                Todavia, há um tipo de amizade que parece ultrapassar, sim, estes tipos citados: a amizade perfeita, segundo Aristóteles. Assim ele diz: “Essa espécie de amizade, pois, é perfeita tanto no que se refere à duração como a outros respeitos, e nela cada um recebe de cada um o mesmo que dá, ou ainda algo de semelhante; e é exatamente isso que deve acontecer entre amigos”. Este tipo de amizade é completa na medida em que permite o prazer e também a utilidade, pois as pessoas, quando se amam, são também agradáveis e úteis umas às outras, contudo, o amor fundamenta-se no amigo por ele mesmo.
                E sobre o desejo de bem a outro? Isso é amizade? Para Aristóteles, desejar o bem a outro homem não é suficiente, ou, não é ainda uma relação de amizade. Entre os que, de fato, são amigos, segundo uma amizade perfeita, é necessário haver uma reciprocidade desse amor desinteressado. Tal reciprocidade consiste em pessoas que se dão uma à outra com ações que ultrapassam à benevolência, e situam-se no âmbito do “fazer parte da vida de”. Diz-se que se ama por si mesmo porque o amor é livre, um e outro escolhem tornarem-se amigos. Não é somente satisfação de carência passageira, nem também busca de mudança e de diversidade, é, pois, a busca pelo crescimento e pelo bem do outro, porque, quando se é amigo, se o outro cresce e fica bem, o mesmo ocorre comigo!
                Para finalizar esta reflexão sobre o que seja uma amizade, podemos lançar a pergunta também feita pelo filósofo em questão: pode uma amizade terminar? Aristóteles afirma que é justo que se rompam as amizades baseadas no prazer e na utilidade, pois quando estes deixam de existir a amizade fica sem significado. Contudo, o mesmo não poderia ocorrer numa amizade cujo amor baseou-se no caráter que cada uma das pessoas da relação possuía. “Mas e quando aceitamos um homem como bom e ele se revela e patenteia mau, devemos continuar a amá-lo?” . Com respeito a isso o filósofo expressa que “ninguém tem o dever de amar o mau”, contudo, atesta que se esse amigo for passível de melhora é característico e distintivo da amizade ajudá-lo no tocante ao seu caráter.  A estabilidade de uma amizade pode produzir mudança de caráter em um indivíduo. A partilha da vida numa verdadeira relação de amizade ajuda a passar melhor os dias, traz saúde para o coração e bons conselhos de vida, tornando-a mais aprazível! Como são suas amizades? Em que se fundamentam? Como você é como amigo? (Suelen Nery dos Santos)
“Quando os homens são amigos não necessitam de justiça”. (Aristóteles).
               
                Para aqueles que apreciam a leitura da Bíblia há alguns textos da literatura de Sabedoria, que acredito, podem ser complemento e até fundamento do que nosso filósofo tão bem explicitou em sua Ética sobre a amizade: Eclesiastes 4,9.10.12; Provérbios 17,1; 18,24; 27,9; Eclesiástico 6,7-17; 9,10. Há também um texto em I Coríntios 15,33 e outro no livro de Rute 1,16.17. Boa leitura e meditação!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Amor como necessário para a vida


               "Gostar é atual... além de ser TÃO BOM!... Uma boca que eu sei, não porque me fala lindo, e sim, beija bem...". Junto de você - sentimento do amor, de amar -, "fica tudo bem, tudo certo... Voa leve pelo vento... você me faz bem"
              O que se pode escrever sobre este sentimento tão nobre? O amor traz alívio, faz com que experimentemos paz, perdão, faz com que sejamos livres de fardos, livres da culpa. O amor parece um anestésico diante das dores mais fortes, mas também parece despertar para a vida do dia a dia, para a vida concreta, para os pés no chão, na medida em que nos permite experienciar compaixão e misericórdia pelo próximo. Todos nós desejamos e necessitamos ser amados e aceitos; logicamente ninguém tem o desejo de ser rejeitado e de receber ações ou olhares de indiferença.
                Frequentemente me pego pensando sobre nossa dificuldade de expressar o amor que sentimos por alguém e também em nossas diferentes formas de expressá-lo. No entanto, não obstante nosso desejo de manifestar e experimentar tudo o que pensamos sobre o amor, algo a que se destacar é a limitação desse sentimento por parte de nós seres humanos. O amor, por vezes, é por nós considerado como a “satisfação de uma fome sublime”, conforme diria o filósofo lituano-francês, Emmanuel Levinas.
                Estudiosos das Escrituras definem o amor como “uma categoria fundadora do cristianismo”. A forma como amamos não pode nem de longe ser comparada ao amor infinito de Deus por sua criação e, consequentemente, por aquilo que faz bem a ela, como a justiça e a paz. Mesmo amando o bem, a verdade e a paz e a sabedoria, parece que, como seres humanos, dificilmente vamos além do “gostar de”, do “apaixonarmo-nos”, do “ser amável”.  O amor de Deus, sim, é de uma fidelidade contínua; é um amor capaz de promover redenção de nós mesmos, de promover liberdade e libertação, de promover alívio e até mesmo um amor capaz de deixar-nos ir, quando expressamos, por alguma escolha ou comportamento, que não desejamos sua direção, seu reinado sobre nossas vidas. Em suma, o amor divino é o único de cunho incondicional. Não obstante, fato é que precisamos ser amados e ainda desenvolver o amor. Necessitamos de cuidado, de hospitalidade, de preocupação, de afeiçoarmo-nos a alguém.
                O sentido de escrever um texto sobre o amor, passa pelo convite a desenvolver nossa capacidade de amar, frequentemente ligada ao medo de amar e não ser amado, ligada à sensação de desafetos ou mesmo a decepções. Costumamos colocar todas as pessoas dentro de um “mesmo pacote” e, numa generalização, dizermos que ninguém é capaz de amar. Mas é preciso desvencilhar-se dessa conclusão advinda de decepções para perceber que cada pessoa é diferente da outra, havendo sempre a possibilidade de desenvolvermos afeições sem apegarmo-nos ao vazio ou à dor deixados por perdas passadas. O convite que aqui fica é o de submetermo-nos a uma cura do medo de amar através da abertura para novos amores, seja por meio do amor phileo (preocupação, cuidado, estar contente com a presença de), seja por meio do amor eros (“anseio, anelo, desejo, amor apaixonado”) e até mesmo pelo amor stergo ou storge (em seu sentido de afeição mútua entre pais e filhos, por vezes perdida pela ausência de perdão, por exemplo).
                O amor, apesar de possuir suas agruras – porque não é feito só de rosas, mas para seu fortalecimento e prova é preciso até a ausência delas –, restaura, renova, traz criatividade, comunhão (com o outro, mas também consigo mesmo); refaz; fortalece; traz vida, humor e cor ao dia; é dádiva; beijo; hospitalidade; abraço; graça; riso, e, sem desejar reduzir o conceito de fé, pode-se dizer que o amor ajuda no renovo e fortalecimento (e por que não no desenvolvimento?) dessa mesma fé e também de nossa esperança.
Pode ser que precisemos aprender acerca do amor incondicional de Deus; pode ser que precisemos aprender sobre isso a fim de obter autencticidade em nossa vida cristã: o cristianismo não é a religião do pecado e sim, do amor, mas parecemos insistir na culpa e em carregar o pesado jugo que ela impõe ao nos concentrar no pecado... No entanto, pensando sob a perspectiva de que através de uma vida cheia de amor, da vivência e experienciação do mesmo, podemos adquirir uma espiritualidade sadia, por que não abrirmo-nos para esta experiência - a experiência do amor, de amar? Porém, lembrando sempre: é preciso abandonar a exigência da incondicionalidade, pois esta nunca partirá de nós...A expectativa de que o outro supra nossos ideais de amor é uma maneira eficaz de desumanizar as relações, na medida em que tornamos o outro objeto de nossas satisfações.” (Suelen Nery dos Santos)