domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fé versus Razão


                É possível que alguns de nós, senão todos, já tenham ouvido a seguinte frase: “religião é para os fracos”. Quando não, ao menos já ouvimos afirmarem que a fé não é coisa para pessoas inteligentes. Nesse breve espaço que aqui temos, podemos pensar acerca de alguns pontos relacionados à “racionalidade da fé”. Racionalidade? Sim, a fé possui sua racionalidade própria. E ela não é do tipo que poderíamos chamar lógico-demonstrativo, mas é um tipo de racionalidade intuitiva, que parte de uma experiência pessoal, por, um dia, alguém ter se aberto a uma realidade que não é só do concreto, do real, do visto.  Essa abertura significa liberdade para decidir, para escolher: alguns decidem então aderir ao sentido que a fé propõe para suas vidas. Santo Tomás de Aquino já dizia que Deus é um mistério incompreensível.
                Sendo assim, podemos falar do limite de conhecimentos das ciências, ou seja, sendo Deus este mistério, a ciência não consegue defini-lo, tendo em vista sua postura de sempre demonstrar experimentalmente as coisas. Deus não é esse objeto que pode ser tomado como estudo experimental de ciência alguma. Urbano Zilles, filósofo e teólogo da atualidade (dentre outras coisas, membro da Academia Brasileira de Filósofos Católicos), bem colocou: “a ciência engaja a pessoa apenas em sua dimensão racional. Trata de problemas que se resolvem. A ciência procura demonstrar, provar. A fé envolve a pessoa em sua globalidade: razão, sentimento e emoção”. Disso podemos nos perguntar: se a fé envolve emoção, sentimento, coração (intuição), por que então estudamos tanto? A resposta é simples: tudo o que lemos, aprendemos, ouvimos sobre Deus é útil à fé, auxilia no anúncio, pois se não houvesse conhecimento sistematizado, como anunciar ou como poderíamos nós mesmos conhecer e aprender? No entanto, toda teologia e filosofia não podem jamais extrapolar os limites, dispensando então a revelação divina.
                Portanto, podemos sim buscar respostas à nossa fé, podemos ter dúvidas – elam se apresentam como elementos que podem fundamentar nossa fé. Mas precisamos tomar cuidado para não chegarmos a uma atitude racionalista extremada que não nos permita ter experiências de um Deus pessoal e, por outro lado, não chegarmos a um fideísmo, atitude que nos leva a afirmar que Deus existe, mas que a razão não pode afirmar ou dizer nada sobre Ele.  Se assim disséssemos estaríamos afirmando que a fé é irracional. Além disso, crer em Deus é ver que nem tudo está pronto e acabado nos fatos do mundo, crer em Deus significa ver que a vida tem um sentido.
                Então, quanto a esse modo de se explicar a fé, relacionado à intuição, percebemos que “a fé não se demonstra com um ato da razão, mas se testemunha. Fé, esperança, amor e fidelidade são realidades que não se demonstram cientificamente, mas se testemunham”, por isso parte da experiência. E, como já advertia Blaise Pascal, o homem não é somente razão, mas também coração, sentimento e emoção: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, dizia ele. Porém, razão e fé não se excluem, mas são dimensões da vida, são duas formas de conhecimento (diferente do que pensam os que criticam ou os que atacam a fé: esta não procura anular a razão, nem a ciência; apenas fala de uma dimensão que ultrapassa aquilo que a razão pode explicar ou expor). O homem é racional e isso significa que ele é inteligente, pois Deus o criou assim, à sua “imagem e semelhança” e sua inteligência permite que se abra para a experiência da fé, para perceber que é possível encontrar um sentido e um valor profundo para o mundo.
                Por fim, podemos afirmar que dizer “sim” à fé não diminui, mas aperfeiçoa o homem em sua humanidade. Mais uma vez, fazendo uso das palavras de Zilles, a fé em Deus e o compromisso com ela “engrandece o próprio homem e o impulsiona ao bom uso de sua razão, pois crer em Deus de modo algum significa cruzar os braços e esperar que as coisas aconteçam por si ou que Deus faça milagre. Antes é ter consciência de que normalmente Deus age no mundo através de sua criação, ou seja, através de nós, de nossa inteligência”. Para que as pessoas então “vejam”, “leiam”, ou mesmo parem para “escutar nossa fé”, não podemos nos omitir em testemunhá-la, não deixando nunca de fazer o bem, mas assumindo uma fé engajada com o mundo.
“Muitos e diversos são os caminhos para conhecer a verdade. A ciência refere-se a uma parte da realidade, pois são várias as ciências. A fé funda-se no testemunho de quem viu o que vale saber para viver melhor e tentar satisfazer as aspirações mais profundas do espírito humano. E isso tentaram viver figuras como Galileu, Descartes, Kepler, Newton que, embora grandes cientistas, foram homens de fé profunda”. (Urbano Zilles)

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