domingo, 13 de fevereiro de 2011

Analogia entre o Silêncio de Abraão e o Mito de Sísifo (narrativa bíblica x narrativa Albert Camus)


  Abraão foi o “pai da fé”. Sendo o “eleito de Deus e o herdeiro da promessa de que todas as nações seriam abençoadas na sua posteridade, [...] só obteve o favor na velhice, depois de grandes dificuldades” (Kierkegaard, 1979). Nessa atitude consiste sua fé. Tais são as palavras de Johannes de Silentio, pseudônimo de Kierkegaard, com respeito à postura de Abraão: “[...] Abraão acreditou e guardou firmemente a promessa a que teria de renunciar se houvesse vacilado. Teria dito então a Deus: Porventura não é da tua vontade que meu desejo se realize; renuncio a meu voto, o único que contava para a minha felicidade; minha alma é reta e não guarda secreto rancor pela tua recusa. Não teria sido esquecido por isso, muitos se teriam salvo por seu exemplo, mas nunca chegaria a ser o pai da fé. Porque é grande renunciar ao mais querido voto, mas maior ainda é mantê-lo depois de o ter abandonado. Grande é alcançar o eterno, mas maior ainda é guardar o temporal depois de a ele ter renunciado” (Kierkegaard, 1979).
Mesmo diante de sua impossibilidade e da impossibilidade de sua esposa Sara, apesar dos cabelos brancos, pois ambos eram já adiantados em idade, não poderia esperar que seu desejo, que era também o de Sara, se cumprisse. Mas foi “suficientemente jovem para desejar ser pai, [...] pois a fé manteve neles o desejo” (Kierkegaard, 1979). “Sara foi escarnecida na sua terra”, o tempo passava porém, finalmente, quando contemplada a promessa, após setenta anos de espera, a prova, implicando “tão curta alegria da fé satisfeita e ainda, [...] ele seria o instrumento da própria infelicidade”.
Mediante essa essencial colocação é que se pode reter à questão do silêncio do “pai da fé”. A provação (a de sacrificar seu único e tão esperado filho a Deus) era tal que infligidora de um voto de silêncio, pois o absurdo era quem falava e falava mais alto, no entanto, falava somente a Abraão. E o absurdo “é o critério negativo daquilo que é mais elevado do que a compreensão e o conhecimento humanos” (Gouvêa, 2000), e, por conseguinte, como tal, angustiante e perturbador.
O segredo de Abraão conservava então a angústia como dor de “ser incapaz de tornar-se compreensível para os outros” (Gouvêa, 2002), ele se sabia ininteligível. Nesse sentido, a agonia decorria do fato de não poder falar para perceber a abertura de todos, para poder universalizar-se como os três heróis retomados por Silentio: Agamenon, Jefté e Brutus, os quais podiam “explicar racionalmente seus terríveis atos de sacrifício” (Gouvêa, 2002). “A fé e a obediência de Abraão pareceriam loucura para aqueles em seu redor” (Gouvêa, 200), sua fé não era passível de transmissão. Todavia, essa fé o conduziria ao assassinato de seu próprio filho, do tão esperado “filho da promessa”.
O silêncio de Abraão “seria constantemente perturbado pelas exigências da ética” (Kierkegaard, 1979), de modo que não poderia gozar de seu silêncio, do silêncio de ter recebido de maneira privada uma ordem divina. Era o acontecimento da passagem do ético ao religioso, salto de Abraão, visto o fato de implicar na “relativização do universal e a elevação do particular” (Gouvêa, 2002). E há ainda algo a ser apreendido na questão além da incompreensão diante do geral, segundo Gouvêa. Ela gira em torno do fato de que se Abraão acrescentasse “que ele acreditava em virtude do absurdo” seria tomado, além de parricida, como insano.
No tocante à perturbação causada pela prova, Abraão suscita a importância do indivíduo. Assim expressa Gouvêa: “Nos Discursos que acompanham Temor e Tremor Kierkegaard afirma que ‘cada pessoa em todas as idades tem sua luta e sua prova espiritual, sua aflição, sua solidão na qual é tentada, sua ansiedade e impotência...’. [...] Para Kierkegaard cada indivíduo é uma exceção, pois todos e cada um de nós é um indivíduo singular perante Deus, e nenhum de nós pode se apoiar na universalidade no que tange a nossa relação com a existência”.
            Quanto a essa existência, que pode ser dita individual e solitária, pode-se relembrar o mito de Sísifo de Albert Camus: “Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. [...] vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície” (Camus, 2004).
            Isso remete a que, para Camus, há a impossibilidade de o homem encontrar o sentido. O mito de Sísifo caracterizava “um trabalho inútil e sem esperança que podia exprimir a situação contemporânea” (Camus, 2004). Pode ser que o absurdo da existência de Camus tenha semelhança com a análise de um verdadeiro cristianismo a que se propõe Silentio Kierkegaard, em virtude da “recusa a todas as fugas”. Sísifo só podia contar consigo mesmo. Essa era a condição de Abraão.
            No entanto, assim como Sísifo não se deixava vencer pela queda da pedra, não permitindo a vitória do rochedo por todas as vezes em que refazia o percurso, Abraão também não se deixou vencer pela angústia a que teve de enfrentar. Não tomou seu silêncio como o faria um esteta, ele fez a escolha – a de enfrentar – e a decisão não lhe proporcionaria nada transitório, pelo contrário, era decisão por fé, certeza sob a qual sabia: “terei Isaac de volta”. A caminhada para Morija se fazia de dor, mas também de alegria, e isso tendo em vista sua crença, “a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis” (Camus, 2004).
            A percepção do silêncio de Abraão envolve a solidão, todavia, talvez se possa dizer, uma alegria silenciosa. Sua prova era como o rochedo de Sísifo: sua questão e, como tal, sua fé na repetição. O sigilo de Abraão envolvia, portanto, um misto de sensações humanas. Concomitante ao fato de se saber incompreensível, havia o absurdo de sua fé – o que o faz herói, o que o faz cavaleiro da fé, o que o faz aquele que realiza o movimento em direção ao infinito, mas com retorno ao finito! Todavia, não se podia perder de vista que o movimento, mesmo que em direção ao infinito, é solitário... Quantas vezes não nos encontramos assim em nossa existência?! Todavia, é preciso enfrentá-la, “recusando todas as fugas”, para, no fim, obter a gloriosa alegria, mesmo que silenciosa!
Suelen Nery dos Santos - 05122010

5 comentários:

  1. Abraão era um mito sem comprovação, do Velho Testamento! Falha da Bíblia ou algo impossível de se comprovar e não-verdadeiro! Vc escolhe...
    Como disse alguem, 'Quem dos apostolos de Cristo cobrava dizimos? Nenhum..Quem deles enrriquecia as custas das igrejas? nehum..Quem deles cantava e pregava por dinheiro? nenhum..Quem deles vendiam epistolas? Nenhum...'

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    1. Por quê será que as pessoas se preocupam tanto com dinheiro, não? Acaso se tirarmos o lado religioso a igreja não se torna um clube de participação terapeutica? E para participar de qualquer clube não temos que pagar por isso?

      Minha conclusão é que ninguem permanece onde não usufrui de algum benefício e, se usufrui, paga ou contribui de alguma forma.

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