sábado, 17 de dezembro de 2011

...tempo...

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Duração ou grandeza incomensurável. Começo, meio e fim. Vinte e quatro horas. Esperança. Cura. Apego. Confiança. Paciência. Encontros. Despedidas. Tudo isso e tantas outras palavras podem quantificar, qualificar e∕ou definir tempo. Há inúmeras músicas que citam a palavra como “sucessão dos anos, dias, horas”, como algo que “envolve a noção de presente, passado e futuro” – conforme nos delibera o dicionário; além de propor outras explanações. Posso afirmar que a de que mais gosto é que afirma o tempo como “momento ou ocasião apropriada para que uma coisa se realize”...

Certo é que, para nós, tempo costuma ser, corriqueiramente, apenas algo que urge, que não para, “que acelera e pede pressa”. Essa é a definição do tempo kronos, palavra grega que alude a uma divindade da mitologia grega. Esse mesmo deus tinha medo de perder seu trono, então devorava todos os seus filhos ao nascerem. Alguma semelhança com o modo segundo o qual o tempo se mostra para nós?! Porque afinal, o tempo se assemelha com algo que, se não atendido, parece querer nos engolir. Mas será que não podemos pensar na cura e na união como propostas do tempo para o ser humano? Sendo assim, passaríamos a aludir ao kairós, “momento oportuno, certo” (também uma divindade grega, Kairós seria o afrontador de Kronos). A cronologia é a duração que deve, então, ser vencida pela “ocasião apropriada”.

Como se faz isso se nos deixamos vencer pela ansiedade que consome ao invés alimentar a alma? Ela demonstra uma aspiração sofrida, um desejo aflitivo que traz malefícios ao corpo, à mente e ao coração. Contudo, mesmo com essa comitiva, ela persiste e o faz por meio de ações impulsivas, seguidas de uma série de malfeitos, porque acompanha o sentimento de que se pode controlar e dominar todas as coisas – algo que a vida, através do kairós, nos mostra: não conseguimos fazer. Esse tempo, se bem compreendido e acolhido, apazigua a ansiedade.

Sendo assim o tempo, enquanto “ocasião adequada, oportuna”, pode ser um “senhor tão bonito” que anuncia chegada – de pessoas, de novos momentos, de possibilidades, de... oportunidades. Pode também, em toda a sua trama, anunciar partidas, choros, resultando naquilo de que menos gostamos de falar: sofrimento. De modo geral, a cultura ocidental não sabe lidar bem com o sofrimento, pois o tem tão somente como desgraça, como combustível das perguntas: “Por que comigo?!” ou “O que foi que eu fiz para merecer isso?!”. Ele causa desconforto mesmo, pois lembra ao homem da sua vulnerabilidade, da sua finitude, fazendo cair o mito do seu tudo poder, saber e resolver. Independente desse emaranhado de sensações e acontecimentos que o tempo pode trazer, existe uma necessidade de, nas palavras de Caetano Veloso, “entrar num acordo com o tempo”, a fim de esperar o momento propício: para reconciliações, reaproximações, pedidos de perdão – de liberação do mesmo –, elaborar perdas, permitir despedidas e acolher encontros, crescer profissionalmente e fazer o que se ama, compreender e abrigar limitações [próprias ou alheias], aprender a sonhar novamente mesmo após algum tipo de fracasso, trabalhar culpas e aceitar-se após os erros, aprender a não desistir (inclusive de si mesmo), alcançar flexibilidade, aprender a rir de si, acatar o próprio tempo com paciência, perceber novo amor e permitir-se sempre amar novamente, aprender a “conduzir o tempo de amar, amar devagar e urgentemente”, “descobrir o tempo de refazer o que se desfez” – bem como superar a impossibilidade do refazer.

Tempo! O tempo pode ser o senhor de tudo, mas, para os que crêem, Deus é o Senhor do tempo. Tenhamos o tempo como grande aliado, como aquele que permite chegar, com suavidade, a “ocasião da delicadeza” na qual podem ocorrer encontros, aprendizados, ganhos. É preciso desvencilhar-se de algumas coisas pelo caminho a fim de poder acatar a incidência da oportunidade com o preparo, “momento adequado para que se realize alguma coisa”. Aprendamos a administrar a amizade com o tempo para colhermos os frutos que dessa amizade decorrem. “Tudo tem seu tempo e para cada coisa há um momento debaixo do céu”.
Suelen Nery dos Santos

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Todos dizem eu te amo"



“Todos dizem eu te amo” é o nome de um dos filmes do fabuloso – adjetivo de opinião bastante pessoal, é verdade, mas que ouso utilizar mesmo assim – cineasta americano Woody Allen. É também o título escolhido para o presente texto. Foi o nome que veio à mente após umas semanas assistindo ao final de filmes da categoria comédia romântica. Ocorreu-me que a frase “eu te amo” era dita facilmente após umas duas semanas de convívio entre os personagens principais. É preciso dizer que duas semanas é um período até longo, há filmes nos quais ouvimos essa mesma expressão entre personagens que convivem há apenas cinco dias. Não é intenção aqui adentrar na crítica a esses mesmos filmes, pois sabe-se que os tais objetivam entretenimento, com todas as suas peculiaridades – inclusive possibilidade fantasiosa, por haver certo êxtase que a acompanha.

O filme que leva o nome supramencionado reserva, por certo, as devidas críticas de seu diretor no tocante às constantes decepções amorosas e à busca por um parceiro ideal. Há, para tanto, plausíveis afirmações da psicologia sobre a questão, bem como explicações filosóficas e esclarecimentos teológicos. As definições psicológicas e filosóficas se aproximam bastante ao expressar que “amar é buscar o que nos falta, acabar com a carência da alma, procurar aquietar o que tanto nos alardeia: o vazio do espírito humano” (palavras da jornalista Talita Cícero numa das edições da revista Filosofia – ciência & vida). No âmbito teológico pode-se perceber o seguinte sendo dito: amar não é somente necessitar do outro numa espécie de utilitarismo. Talvez duas das maiores definições bíblicas de amor encontram-se, respectivamente, ditas pelo evangelista João (Deus enviou seu Filho ao mundo por amor, em 3.16) e pelo apóstolo Paulo nas famosas palavras de I Coríntios 13 ("o amor é paciente, benigno, não arde em ciúmes, não é orgulhoso e nem se ensoberbece, não se conduz de maneira inconveniente, não procura os seus interesses, não é arrogante, nem suspeita mal").
Acredito não haver como fugir do fato de que buscamos no outro o suprimento de nossas carências afetivas e espirituais. Contudo, é possível desenvolver a metanóia [mudança de mente] a partir de uma linha comum a atravessar cada um de nós em nossas relações: o alcance do equilíbrio, através da compreensão de que nossa busca pelo que falta não se encontra em ser humano algum e que também não é amor a tentativa de equilibrar-se no outro, numa anulação de toda a existência individual e pessoal. 
Todos podem dizer “eu te amo”. Mas ao dizer isso será que se está amando mais o objeto do desejo do que o próprio desejar? Será que não se está amando “a coisa outro” (nas palavras do filósofo Fábio Maimone)? Santo Agostinho, assim como Aristóteles com relação à amizade, afirma haver diferentes amores para diferentes objetos. De fato, podemos estar cientes de que não amamos a todos de maneira igual, mas também que essas diferentes intensidades do amor são desenvolvidas conforme a profundidade da admiração e do espanto (pathos) que se tem com relação ao outro. Marcelo A. de Oliveira, diretor de uma escola de Filosofia em São Paulo, afirma que “o verdadeiro amor é desenvolvido para que as pessoas vivam de uma maneira melhor, com justiça e amizades verdadeiras”.
O que acontece então naquele encontro com outro alguém a respeito do qual surge uma atração imediata e uma admiração quase que idealista? O que ocorre nessa imediatidade – que até pode levar a dizer “eu te amo” em apenas algumas horas ou em poucos dias –, sem o processo gradual e∕ou evolutivo que acompanha o amor, na maior parte das vezes, é a paixão. O problema não é vivenciá-la, afinal sua sensação é extremamente agradável, o problema está em nossa carnalidade. A “coisa física” imobiliza, desequilibra, irracionaliza, é transitória, busca a outra metade – essa, inexistente simplesmente pelo fato de não sermos metades, e sim, inteiros. O amor, em seu verdadeiro sentido, é equilibrado e supera o corpo, “é uma vontade de saber mais”, segundo Maimone. O amor é aprendizado, enxerga valores para além das aparências. Estamos numa era em que os relacionamentos são difíceis por haver muito pouco de partilha de sonhos, de ideais, de pensamentos, do que se é de fato e da prisão muito mais ao corpo que à alma. Que nossa escolha seja pelo caminhar no amor para além de toda a superficialidade presa ao que nossos olhos veem!

(Suelen Nery dos Santos)

sábado, 16 de julho de 2011

Mania de definição


 


                      
     Temos uma comum mania de definição, na verdade, parecemos neuróticos por definições – faz parte de nosso desejo de controle das coisas à nossa volta, das pessoas e do mundo. “Amar é...” – lembro-me de um álbum de figurinhas da década de 80. Havia neste álbum inúmeras frases com conceitos do que significa amar. Era interessante, e um tanto quanto engraçado, folhear todo o álbum depois de completo: parecia uma história em quadrinhos que intentava descrições sobre o que era um amor verdadeiro. Falar sobre este álbum é apenas uma citação – talvez irônica, talvez amena – a respeito de nosso desejo (quase compulsão) por conceitos e definições.
     Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo cujo pensamento é marcado pelo aparecimento do Movimento “Anti Iluminismo” denominado Romantismo (renascimento do instinto e da emoção), escreveu A vontade de amar. Ao contrário do que podemos pensar sob o primeiro impacto do título da obra e mesmo a partir do que é popularmente disseminado sobre o que seja “romântico”, Schopenhauer não faz alusão a entregas e amores cheios de suspiros. Ele trata do amor como algo bastante instintivo, a partir do qual nos voltamos para o outro não como fonte da satisfação de aspirações fantasiosas ou sonhadoras, e sim, como resposta a uma necessidade de perpetuação da espécie. Já temos aqui um pensador com uma definição a respeito do amor. Emmanuel Lévinas (1905-1995), em contrapartida, afirma que “a ideia de um amor que seria uma confusão entre dois seres” – como que numa mistura, numa simbiose – “é uma falsa ideia romântica”. E apenas estes dois foram citados, mas há muitos outros filósofos (a exemplo de Platão em O Banquete) que buscaram a definição do que seria o amor. 
     O presente texto não será escrito com a intenção de definir este sentimento ou de falar como talvez o vivenciemos de modo incorreto, mas sim, de falar acerca do “objeto” de amor. Uma coisa se pode ter por certa: amor envolve conhecimento e não, “confusão entre dois seres”. Por isso costumamos dizer que a célebre fala “eu te amo” expressa para alguém que se conhece há apenas dois dias ou uma semana pode ser um tanto quanto “utópica”. O que amamos quando dizemos amar? Será que amamos a uma definição que formulamos em nossa mente, como a uma imagem que nos leva a experimentar calafrios e sorrisos (num dito popular “borboletas no estômago”), ou amamos o que nem sequer podemos denominar, conceituar, mas com o qual mantemos um desejo intenso de domínio, de simbiose?
     Na filosofia o processo de conhecimento possui um modelo tradicional: o saber parte do sujeito. É o indivíduo racional, que pensa, quem constrói o saber. E isso é tão óbvio quanto certo. Contudo, pode ser que a situação mude um pouco seu cenário quando o “objeto” de conhecimento é uma outra pessoa. Por que falar sobre isso? Porque no presente momento histórico denominado “pós modernidade” sofremos de uma ansiedade extremada, de uma necessidade do “fast”, da rapidez, do instantâneo. E a pergunta é: será que isso permeia nossas relações? Será que isso não prejudica a construção de uma solidez, bem como a necessidade de suavidade e possibilidade de florescimento? No momento em que conhecemos alguém tendemos logo a denominá-lo, a pregar rótulos, o que muitas vezes é desconcertante para esse alguém – ou para nós mesmos, quando fazem isso conosco. Nalgumas vezes sentimo-nos no direito de falar coisas que as pessoas precisam mudar a partir de nosso julgamento preciso e de nosso senso crítico – por vezes exacerbado –, e será que isso não expressa um desejo de controle também? Controle de pessoas...
      Pode ser que haja a necessidade de romper com uma estrutura de conhecimento nos relacionamentos a partir da qual nós ditamos as regras, julgando saber tudo do outro, mesmo tendo observado tão pouco a respeito dele. Relacionar-se deve ser algo processual. Nosso conhecimento de quem a outra pessoa é não ocorre com apenas um dia de conversa ou poucas horas de convivência semanal. E é interessante pensar sobre isso porque estamos tão acostumados à rápida necessidade de conceitos e definições que não sabemos dar tempo ao tempo, que abandonamos muito rapidamente as coisas e, principalmente, talvez, relações – esquecendo-nos de que cada um possui uma história que o constitui como pessoa. História, e não unidade de processamento de dados a respeito da qual podemos fazer um curso de 30 horas∕aula para tomar conhecimento. Cada um carrega consigo motivos de ser o que é, motivos que só se conhece convivendo-se e não denominando-se rapidamente pelo desejo de definições. Se pessoas são definições, estas são “inomináveis”. Sem rótulos... Suavidade! Disposição para o conhecimento...Abertura para o outro [novo]! 
(Suelen Nery dos Santos)

"SOU CHEIA DE MANIAS. TENHO CARÊNCIAS INSOLÚVEIS. SOU TEIMOSA. HIPOCONDRÍACA. RAIVOSA, QUANDO SINTO-ME ATACADA. NÃO COMO CEBOLA. SÓ ANDO NO BANCO DA FRENTE DOS CARROS. MAS NÃO IMPONHO A MINHA PESSOA A NINGUÉM. NÃO IMPLORO AFETO. NÃO SOU INDISCRETA NAS MINHAS RELAÇÕES. TENHO POUCOS AMIGOS, PORQUE ACHO MAIS INTELIGENTE SER SELETIVO A RESPEITO DAQUELES QUE VOCÊ ESCOLHE PARA CONTAR OS SEUS SEGREDOS. ENTÃO, SE SOU CHATA, NÃO INCOMODO NINGUÉM QUE NÃO QUEIRA SER INCOMODADO. CHATEIO SÓ AQUELES QUE NÃO ME ACHAM UMA CHATA, POR ISSO ME QUEREM AO SEU LADO. ACHO SIM, QUE, ÀS VEZES, DOU TRABALHO. MAS É COMO TER UM ROLLS ROYCE: SE VOCÊ NÃO QUISER TER QUE PAGAR O PREÇO DA MANUTENÇÃO, MUDE PARA UM PASSAT." (Fernanda Young)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Proezas da solidão

 
beleza da solidão


                É possível ouvir de alguns a respeito da solidão como sendo esta um dos “males do século”. Solidão foi assunto de muitos filósofos ao longo dos tempos, acredita-se, porque sentida pelos mesmos. O termo implica no que comumente denominamos “isolamento”, “sentimento de vazio”, e ainda, segundo a terapeuta e educadora Elaine Lili Fong, “sensação de separatividade e desconexão” com o mundo exterior (pessoas e coisas).
                Solidão é algo que, acredito, todos os seres humanos experimentam em determinados momentos da vida. Como tal, é assunto comum não apenas a uma só pessoa, por outro lado, temido, pouco se fala sobre ele. É o que poderia ser chamado, pela sociologia, de “fato social”, tendo em vista ser um fenômeno que se caracteriza por sua generalidade, isto é, não existe para um único sujeito. Experienciar a solidão, então, não é “privilégio” exclusivo de um indivíduo. Costuma-se até questionar: quem nunca esteve numa festa ou noutro ambiente qualquer rodeado de pessoas e, ainda assim, não se sentiu sozinho (ou, segundo Eugenio Mussak escreveu no artigo "Ficar [bem] sozinho" publicado na Revista Vida Simples, solitário - termo mais adequado em virtude da diferença entre solitário e solidão)? A filosofia nomeia isso de solipsismo (uma espécie de solidão existencial).
                Não obstante o caráter pesado com que se apresenta a solidão quero aqui pontuar suas características positivas. Certo é que não se pode esconder seu lado doloroso e angustiante, como uma experiência do nada. Enquanto “fato social” é um fenômeno digno de atenção daqueles que estudam a sociedade e o ser humano. Há também o lado daqueles que optam viverem sozinhos por diversos motivos – formando o que se chama “tendência single”. No entanto, se bem aproveitado e pensado, o momento de experienciação da solidão pode produzir ótimos resultados.
                A solidão não se constitui apenas como um isolamento – até mesmo quando se sente incompreendido por todos – ou de estar incomunicável com o mundo, como no mito da solidão de Robinson Crusoé. Ser só é saber que tudo pode ser trocado entre as pessoas, menos a própria vida, é a relação com o próprio interior. Isso nada tem a ver com pensamento positivo ou mentalização, tem a ver com “ausência assimilada” como escreveu Carlos Drummond de Andrade. O que isso significa? Santo Inácio de Loyola, para os religiosos, pode ajudar nisso quando fala acerca dos Exercícios Espirituais. Para ele tais Exercícios se constituem de exames de consciência, meditação, contemplação, oração vocal ou mental e outras atividades espirituais. “Porque, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais também se chamam exercícios espirituais os diferentes modos de a pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas e, tendo-as afastado, procurar e encontrar a vontade de Deus, na disposição de sua vida para o bem da mesma pessoa”, segundo Santo Inácio.
                Pode-se perceber e acolher, para quem crê, a ação de divina por meio da escolha por não fugir de si mesmo, procurando trabalhar “afeições desordenadas”. Além disso, a percepção da solidão pode ser um momento de aprendizado de si – não importa a idade, sempre se está aprendendo a respeito de si próprio –, de crescimento, de ficar bem consigo mesmo. Pode-se utilizar desse sentimento para aprender a assumir a própria vida e para o fortalecimento do que se é enquanto pessoa. Estar só é ter a própria companhia, dar atenção, acolher a si mesmo segundo Lili Fong; é “ouvir minha própria voz”, como diz a letra de uma música. Solidão traz sentimento de falta, de ausência de pessoas e, como o próprio poeta já aqui citado, Drummond, lastimamos este sentimento. Contudo, ele parece, no poema “Ausência”, afirmar a superação de tal lamento ao afirmar: “Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
                Poderíamos, certamente, falar muitas outras coisas a respeito da solidão, do modo como ela é uma experiência tão comum e ao mesmo tempo uma dor aguda para alguns e bastante incômoda para outros (ou ambas as coisas). Mas é preciso saber que tendo aprendido que “você não pode estar só, se gostar da pessoa com quem fica quando está sozinho”, não será mais tão difícil enfrentar esse sentimento. Há ainda o aprendizado de que, quando assimilada essa realidade, ninguém a rouba de você. É você tomando as rédeas de sua própria vida! Proezas da solidão...
(Suelen Nery dos Santos)
               Recomendo a leitura do artigo de Eduardo Mussak supracitado: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/059/pensando_bem/conteudo_257613.shtmln
"...QUE MINHA SOLIDÃO ME SIRVA DE COMPANHIA. QUE EU TENHA A CORAGEM DE ME ENFRENTAR. QUE EU SAIBA FICAR COM O NADA E MESMO ASSIM ME SENTIR COMO SE ESTIVESSE PLENA DE TUDO..." (Clarice Lispector)

domingo, 22 de maio de 2011

Expectativas (= esperanças não supridas)


Parece ser necessidade intrínseca do ser humano a necessidade da “confiança em”. Assim, a confiança põe-se como necessária a essa vida em sociedade. Não é possível estabelecer relações íntimas sem a confiança, além disso, o ser humano busca constantemente pela verdade em todas as dimensões de sua vida e isso não poderia ser diferente em suas relações interpessoais. A confiança supõe um ato espontâneo de adesão à uma verdade que alguém nos anuncia. Confiar é pôr o coração na verdade de alguém. Mas como nos relacionamos com inclinações afetivas - a questão da confiança se põe no âmbito interpessoal - a situação parace se complicar.

Quantos certamente não fariam a seguinte afirmação partindo de uma relação com o transcendente, o metafísico: “Confiar em Deus eu confio, agora... nas pessoas... Isso já é pedir demais...”. Quantos já não sofreram decepções, já foram traídos, já esperaram demais e magoaram-se? Há pessoas que, de fato, parecem mostrar-se indignas de confiança, de entrega, de conhecer a subjetividade, a interioridade de outro coração. Por outro lado, a generalização pode nos impedir a experienciação de algo sempre novo e dessa lógica todos sabemos.
Desse modo, a reflexão a ser feita aqui pode partir do aprendizado de nós mesmos, do que esperamos no processo da "confiança em", pois, a maneira mais usual de se lidar com decepções é aderindo ao total descrédito, à falta de segurança com relação ao ser humano e à afirmação do filósofo inglês Thomas Hobbes de que “o homem é lobo do próprio homem”. 
Não obstante, proponho que caminhemos para o aprendizado de que em nossas relações podemos diminuir nossas exigências, nossa espera, nossas expectativas. E essa proposta não visa partir para o âmbito laboral como uma desculpa para maus profissionais, pois, de fato, devemos buscar ser exímios em tudo quanto fizermos. Também não se busca fazer apologia à frouxidão moral. Mas pensemos no fato de estarmos sempre esperando que pessoas – sejam elas próximas, queridas, cônjuges, amigos, quaisquer tipo de lideranças – supram nossas maiores expectativas, que não errem conosco.
Nossa espera pelo melhor de alguém pode partir da crença na conservação de valores, na ética, na moral que acreditamos que outras pessoas possuem, pois eu não sou, exclusivamente, o único ser ético do planeta. No entanto, essa espera não deve imperar no nível da exigência interna de que todos que se aproximarem supram sempre minhas expectativas. Precisamos pensar a partir do fato de que os que estão à nossa volta são pessoas, como eu e como você. São passíveis de falhas, equívocos, muitos dos quais sequer foram propositais. Isso pode nos trazer maleabilidade e amabilidade em nossas afirmações relacionadas a outras pessoas. Alguém pode não falar conosco com o mesmo afã, sorriso e abertura de todos os dias porque pode estar num mau dia, passando por problemas e até mesmo necessitando de algum auxílio – o que nem notamos se estivermos centrados em nosso mundo, nas ofensas recebidas [que os outros podem nem estar sabendo que dirigiram a nós].
Nesse sentido, ao reunirmos indícios para confiar em alguém, devemos ter em mente que essa necessidade de apoio, de entrega e de espera do bem deve ocorrer mais a partir da na sinceridade e na lealdade do outro, que na certeza de que a resposta à nossa confiança irá sempre suprir nossa espera. De tudo ficamos com a ciência de que a confiança se constitui num risco, mas a reciprocidade se torna possível na medida em que “me sei” capaz de amar, de ser sincero e leal para com outrem. Devo pensar a partir de mim: podem outros confiar em mim?, se entregar para mim?, sou eu uma pessoa passível de confiança? 
Podemos sempre pensar um pouco sobre como "sugamos" as pessoas e exigimos por demais a atenção e o amor das mesmas, quando nem mesmo é obrigação de ninguém fornecer isso a nós. Pensar também em como ficamos enfurecidos quando o outro não cumpre com aquilo que criamos como desejo e este outro nem serquer é obrigado a corresponder, pois todos possuem o direito do "não desejo", do "não gostar", do "não querer"..., assim como nós os possuímos.
Algo que ouvi de uma pessoa amada: "o problema não está no amor (ou mesmo na paixão); amar nunca é um problema e sim, nossa carnalidade. A grande questão está no fato de saber como direcionar, como ordenar o amor que temos dentro de nós sem o prejuízo de ninguém". Especialmente quando apaixonados, comportamo-nos como excessivamente desejosos de Eros - de presença, de carícias, de corpo a corpo, de toques, de beijos, de abraços...
Acho que sempre cabe a afirmação do filósofo Emmanuel Levinas de que o outro não é posse nossa, ele é o único que concede um contraditório poder: o poder de nada poder com relação a ele - que é outro, meu alheio, meu externo, "metafísico a mim". A partir da reflexão sobre expectativas, procuremos pensar a respeito de nós mesmos, analisar nossas exigências, nossa capacidade de amar, de ser um sincero apoio para nós mesmos e a partir de nós, com a ausente cobrança dos outros. Expectativas não supridas doem porque são esperanças não cumpridas... Mas as relações ficam mais ricas sem pesadas exigências, pois assim constrói-se melhor o espaço para a liberdade de ambos, permitindo que cada um seja apenas o que é...!
Suelen   Nery dos Santos
"O amor é a coisa mais triste quando se desfaz (como dizia Vinícius) porque ele é idealizado como perfeito demais para se desfazer. [...] Uma fase complicada nos relacionamentos: fazer o relacionamento dar certo a despeito das perspectivas que criamos com relação ao parceiro. Não existe segredo para isso, mas os especialistas aconselham que a honestidade pode ser uma boa saída para evitar frustrações. Ponha as cartas na mesa: deixe claro o que espera da relação e o que está disposto a fazer para ela dar certo – e em que não consegue ceder. Dessa forma, as expectativas tendem a ser mais realistas e não caímos na tentação de querer presumir o que o outro pensa ou deseja. Nem querer que o outro adivinhe o que esperamos dele." (leia também: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/079/grandes_temas/conteudo_450012.shtml)


domingo, 17 de abril de 2011

Abraço: expressão de aceitação

         
          Dizem por aí que a média de dez abraços por dia é necessária para passar o dia bem, com a leveza que a experiência de bons sentimentos traz para a vida. De fato ser envolvido com afeto pelos braços de outra pessoa é algo que remete a um conforto, aconchego. Sendo assim, o abraço está para muito além do toque, abraço é recepção! Quando recebemos pessoas em nossa casa – geralmente recebemos pessoas próximas, convidadas, queridas – trocamos beijos ou abraços. Ambos são símbolo de “boas vindas” e as Sagradas Escrituras falam acerca do ósculo (e da água para lavagem dos pés) na recepção de convivas – o que era muito marcante e importante na cultura do Oriente Médio. E, sociologicamente falando, o beijo possui um significado em cada cultura.
          Desse modo, transferindo para nossa cultura a reflexão sobre o beijo na face, podemos aferir que tal ação é um cumprimento estendido até a pessoas a quem nem queremos tão bem. Por vezes, dependendo do ambiente, pode até partir de um princípio de educação, uma ação dispensada a alguém que se acaba de conhecer, por exemplo.
          No entanto, o abraço parece expressar um âmbito mais afetivo, uma relação mais próxima, uma demonstração de afeto, de recepção, já que é toque. Abraça-se alguém como que para “matar” saudade, para expressar amor, carinho. O abraço, então, pode anunciar aceitação. Como é bom receber um abraço após um momento de briga! Esse abraço pode dizer tanta coisa sem palavras, por uma transferência de sentimentos, do desejo de ter a pessoa por perto. Certamente podem ocorrer abraços não retribuídos, contudo, falamos aqui do abraço recíproco. Nesse sentido, afirmamos que abraçar é ter de outro alguém aceitação – mesmo após a mostra de alguma faceta de nosso modo de ser cuja amabilidade, deleite ou admiração passem longe; mesmo diante de coisas nossas, peculiares, que por vezes, desejamos esconder. Abraço é hospitalidade, recepção, mesmo sem ser consentimento, é o antônimo de rejeição, pois pode dizer: "Eu te recebo mesmo sem concordar ou acatar determinada atitude sua"... Abraço, é calor e conforto, pois é como se ouvíssemos: "Abraça-me e diga que me ama e tudo vai ficar bem...".
         O abraço é terapêutico, é uma espécie de remédio... Abraço é sinal de humanização, é afecto, afecção, na medida em que afeta – e até desperta – sentidos, sentimentos, sensações. O abraço traz sensação de pathos (como os gregos antigos chamavam o amor) e é um pathos que não é patologia, doença, mas "admiração" (o que o termo grego pathos significa). Nesse sentido, abraço traz admiração pelo belo, pelos bons sentimentos, revigora, traz bom humor. Sendo assim, abraço rememora amor. Este sentimento não é aquele de uma interpretação errônea a respeito de Platão, como se não fosse possível de ser alcançado, apenas de vontade, quimera. Marcelo Augusto de Oliveira, diretor da escola de Filosofia Nova Acrópole de Santos (SP), explica que "na visão de Platão o verdadeiro amor é um impulso de vida para a sabedoria e não necessariamente para uma pessoa". Desse modo, já que abraço rememora o amor, o abraço pode fazer as pessoas que se abraçam encontrarem uma força, uma energia, que manifeste um desejo de viver de maneira melhor, uma vez que esse encontro de braços, esse toque físico vindo de pessoas que se estimam mutuamente converte-se em bons desejos para o outro.

          Acredito que se houver algo que possa fundamentar o dito popular de que necessitamos de dez abraços diários, é isso: o abraço nos reconcilia com a vida e como tal traz paz, alívio, sensação de conforto mesmo diante das intempéries da vida e enfrentadas conosco mesmo (afinal, quem nunca briga consigo?); abraço é remetimento ao amor...  Assim, quando abraçados por alguém sentimos alguém dizer: "eu te recebo", "seja bem vindo" – o que pode auxiliar no processo do dizer isso para si mesmo (embora nosso olhar acerca de quem somos não depende do que alguém possa colocar dentro de nós, a aceitação de outrem pode auxiliar no processo da auto construção e da auto aceitação de quem somos, afinal, todos necessitamos de afeto). Tião Rocha, educador popular, antropólogo e folclorista, fundador do Centro Popular da Cultura e Desenvolvimento, afirma que "o afeto, o abraço, o cafuné [...] fazem com que as pessoas sintam mais orgulho de si e as ajudam a sair da linha de baixo, do desprezo, para a de cima, da auto-estima".
          Que você receba tantos abraços diários quantos forem necessários para transmitir força, vigor e melhor: a sensação de ser amado! 
(Suelen Nery dos Santos)

"Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam" (Clarice Lispector)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Afinal, o que é "amizade"?

          
           Aristóteles, filósofo de Estagira (384-322 a.C.), foi quem buscou aprofundar o sentido desta relação para a vida como um todo e, por isso, pode nos ajudar a responder a pergunta. Aristóteles afirma, na obra Ética a Nicômaco, que a amizade (philia) é “sumamente necessária à vida”, mesmo para aqueles que possuem muitos bens, pois a prosperidade nada é sem o “ensejo de fazer o bem”, “bem” que consiste na “prática de nobres ações”.
            No senso comum amizade é uma palavra que evoca uma relação de confiança. Mas o filósofo parece ir para além disso, e, a fim de alcançar esse sentido, reconhece que a amizade é uma relação de amor. No entanto, pode-se falar acerca da existência de tipos de amizade em Aristóteles, pois as formas de amizade relacionam-se com o objeto do amor ou “coisas estimáveis” e “com respeito a cada uma delas existe um amor mútuo, e os que se amam desejam-se bem a respeito daquilo por que se amam”. Dentre os tipos enumerados e descritos há um mais excelente, entretanto, não se pode anular as outras espécies de amizade em virtude de haver um sentido supremo para tal relação. Por outro lado, é em função de uma amizade excelente que “as outras são reconhecidas, e também contestadas, como amizades”. Neste texto podemos então adquirir um breve saber acerca desses tipos de amizade, analisar que tipo de amigo(a) somos e ainda intentar alcançar um nível mais elevado para nossas relações amistosas
             Aristóteles chega a afirmar que a amizade, em sua excelência, é um equipamento necessário para a felicidade. Mas como alcançar essa excelência numa relação de amizade? A partir deste questionamento podemos então atestar que, para o filósofo, a amizade pode basear-se na utilidade, ou no prazer, ou no bem (denominando assim, os tipos dessa relação). A amizade fundamentada na utilidade diz respeito ao amor com vistas ao que é recebido do outro, isto é, ama-se pelo que é bom para si. A que se fundamenta no prazer dá-se no amor pelas pessoas por serem elas agradáveis para si. Sendo assim, nestas duas formas de amor, ama-se “não na medida em que o outro é a pessoa amada, mas na medida em que é útil ou agradável”. O filósofo estagirita atesta que essas amizades, por não terem o fundamento do amor na pessoa amada por ela mesma, pelo que ela é, são amizades acidentais, que “se dissolvem facilmente”, visto que se alguém, nesse tipo de relação, deixa de ser agradável ou útil, perde-se o sentido do amor.
                Todavia, há um tipo de amizade que parece ultrapassar, sim, estes tipos citados: a amizade perfeita, segundo Aristóteles. Assim ele diz: “Essa espécie de amizade, pois, é perfeita tanto no que se refere à duração como a outros respeitos, e nela cada um recebe de cada um o mesmo que dá, ou ainda algo de semelhante; e é exatamente isso que deve acontecer entre amigos”. Este tipo de amizade é completa na medida em que permite o prazer e também a utilidade, pois as pessoas, quando se amam, são também agradáveis e úteis umas às outras, contudo, o amor fundamenta-se no amigo por ele mesmo.
                E sobre o desejo de bem a outro? Isso é amizade? Para Aristóteles, desejar o bem a outro homem não é suficiente, ou, não é ainda uma relação de amizade. Entre os que, de fato, são amigos, segundo uma amizade perfeita, é necessário haver uma reciprocidade desse amor desinteressado. Tal reciprocidade consiste em pessoas que se dão uma à outra com ações que ultrapassam à benevolência, e situam-se no âmbito do “fazer parte da vida de”. Diz-se que se ama por si mesmo porque o amor é livre, um e outro escolhem tornarem-se amigos. Não é somente satisfação de carência passageira, nem também busca de mudança e de diversidade, é, pois, a busca pelo crescimento e pelo bem do outro, porque, quando se é amigo, se o outro cresce e fica bem, o mesmo ocorre comigo!
                Para finalizar esta reflexão sobre o que seja uma amizade, podemos lançar a pergunta também feita pelo filósofo em questão: pode uma amizade terminar? Aristóteles afirma que é justo que se rompam as amizades baseadas no prazer e na utilidade, pois quando estes deixam de existir a amizade fica sem significado. Contudo, o mesmo não poderia ocorrer numa amizade cujo amor baseou-se no caráter que cada uma das pessoas da relação possuía. “Mas e quando aceitamos um homem como bom e ele se revela e patenteia mau, devemos continuar a amá-lo?” . Com respeito a isso o filósofo expressa que “ninguém tem o dever de amar o mau”, contudo, atesta que se esse amigo for passível de melhora é característico e distintivo da amizade ajudá-lo no tocante ao seu caráter.  A estabilidade de uma amizade pode produzir mudança de caráter em um indivíduo. A partilha da vida numa verdadeira relação de amizade ajuda a passar melhor os dias, traz saúde para o coração e bons conselhos de vida, tornando-a mais aprazível! Como são suas amizades? Em que se fundamentam? Como você é como amigo? (Suelen Nery dos Santos)
“Quando os homens são amigos não necessitam de justiça”. (Aristóteles).
               
                Para aqueles que apreciam a leitura da Bíblia há alguns textos da literatura de Sabedoria, que acredito, podem ser complemento e até fundamento do que nosso filósofo tão bem explicitou em sua Ética sobre a amizade: Eclesiastes 4,9.10.12; Provérbios 17,1; 18,24; 27,9; Eclesiástico 6,7-17; 9,10. Há também um texto em I Coríntios 15,33 e outro no livro de Rute 1,16.17. Boa leitura e meditação!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Amor como necessário para a vida


               "Gostar é atual... além de ser TÃO BOM!... Uma boca que eu sei, não porque me fala lindo, e sim, beija bem...". Junto de você - sentimento do amor, de amar -, "fica tudo bem, tudo certo... Voa leve pelo vento... você me faz bem"
              O que se pode escrever sobre este sentimento tão nobre? O amor traz alívio, faz com que experimentemos paz, perdão, faz com que sejamos livres de fardos, livres da culpa. O amor parece um anestésico diante das dores mais fortes, mas também parece despertar para a vida do dia a dia, para a vida concreta, para os pés no chão, na medida em que nos permite experienciar compaixão e misericórdia pelo próximo. Todos nós desejamos e necessitamos ser amados e aceitos; logicamente ninguém tem o desejo de ser rejeitado e de receber ações ou olhares de indiferença.
                Frequentemente me pego pensando sobre nossa dificuldade de expressar o amor que sentimos por alguém e também em nossas diferentes formas de expressá-lo. No entanto, não obstante nosso desejo de manifestar e experimentar tudo o que pensamos sobre o amor, algo a que se destacar é a limitação desse sentimento por parte de nós seres humanos. O amor, por vezes, é por nós considerado como a “satisfação de uma fome sublime”, conforme diria o filósofo lituano-francês, Emmanuel Levinas.
                Estudiosos das Escrituras definem o amor como “uma categoria fundadora do cristianismo”. A forma como amamos não pode nem de longe ser comparada ao amor infinito de Deus por sua criação e, consequentemente, por aquilo que faz bem a ela, como a justiça e a paz. Mesmo amando o bem, a verdade e a paz e a sabedoria, parece que, como seres humanos, dificilmente vamos além do “gostar de”, do “apaixonarmo-nos”, do “ser amável”.  O amor de Deus, sim, é de uma fidelidade contínua; é um amor capaz de promover redenção de nós mesmos, de promover liberdade e libertação, de promover alívio e até mesmo um amor capaz de deixar-nos ir, quando expressamos, por alguma escolha ou comportamento, que não desejamos sua direção, seu reinado sobre nossas vidas. Em suma, o amor divino é o único de cunho incondicional. Não obstante, fato é que precisamos ser amados e ainda desenvolver o amor. Necessitamos de cuidado, de hospitalidade, de preocupação, de afeiçoarmo-nos a alguém.
                O sentido de escrever um texto sobre o amor, passa pelo convite a desenvolver nossa capacidade de amar, frequentemente ligada ao medo de amar e não ser amado, ligada à sensação de desafetos ou mesmo a decepções. Costumamos colocar todas as pessoas dentro de um “mesmo pacote” e, numa generalização, dizermos que ninguém é capaz de amar. Mas é preciso desvencilhar-se dessa conclusão advinda de decepções para perceber que cada pessoa é diferente da outra, havendo sempre a possibilidade de desenvolvermos afeições sem apegarmo-nos ao vazio ou à dor deixados por perdas passadas. O convite que aqui fica é o de submetermo-nos a uma cura do medo de amar através da abertura para novos amores, seja por meio do amor phileo (preocupação, cuidado, estar contente com a presença de), seja por meio do amor eros (“anseio, anelo, desejo, amor apaixonado”) e até mesmo pelo amor stergo ou storge (em seu sentido de afeição mútua entre pais e filhos, por vezes perdida pela ausência de perdão, por exemplo).
                O amor, apesar de possuir suas agruras – porque não é feito só de rosas, mas para seu fortalecimento e prova é preciso até a ausência delas –, restaura, renova, traz criatividade, comunhão (com o outro, mas também consigo mesmo); refaz; fortalece; traz vida, humor e cor ao dia; é dádiva; beijo; hospitalidade; abraço; graça; riso, e, sem desejar reduzir o conceito de fé, pode-se dizer que o amor ajuda no renovo e fortalecimento (e por que não no desenvolvimento?) dessa mesma fé e também de nossa esperança.
Pode ser que precisemos aprender acerca do amor incondicional de Deus; pode ser que precisemos aprender sobre isso a fim de obter autencticidade em nossa vida cristã: o cristianismo não é a religião do pecado e sim, do amor, mas parecemos insistir na culpa e em carregar o pesado jugo que ela impõe ao nos concentrar no pecado... No entanto, pensando sob a perspectiva de que através de uma vida cheia de amor, da vivência e experienciação do mesmo, podemos adquirir uma espiritualidade sadia, por que não abrirmo-nos para esta experiência - a experiência do amor, de amar? Porém, lembrando sempre: é preciso abandonar a exigência da incondicionalidade, pois esta nunca partirá de nós...A expectativa de que o outro supra nossos ideais de amor é uma maneira eficaz de desumanizar as relações, na medida em que tornamos o outro objeto de nossas satisfações.” (Suelen Nery dos Santos)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

É preciso dizer "Adeus"



As vezes é preciso “dar” adeus! Mochila nas costas, pé no caminho. Paulo falava acerca de um fardo que é nosso e que ninguém poderia carregar por nós (Gl 6,5), apesar do apelo de “carregar os fardos uns dos outros” (Gl 6,2). É um pouco sobre tudo o que temos de colocar sobre nossas costas, coisas nossas, objetos necessários, para então colocar o pé no caminho e seguir. Dar “adeus” pode vir substancialmente acompanhado de tantas lembranças e com isso adquirir peso, mas o que ele – o adeus – nunca pode carregar consigo é uma corda amarrada à cintura, corda essa que sempre faz aquele que disse o “adeus” querer retornar.
É preciso dar “adeus!” à segurança da casa dos pais; é preciso dar “adeus!” às seguranças; muitas vezes é preciso dar “adeus!” a colos; é preciso dizer “adeus” à lembranças (aquelas desnecessárias), não se apegar a passados; dar “adeus!” a si mesmo, ao que se foi, para livrar-se de culpa, de cargas pesadas demais para serem levadas durante a caminhada rumo ao “destino do ‘adeus!’”. Entenda o dizer “adeus” à casa dos pais ou aos pais... Não é sair de casa para crescer somente! Dizer “adeus” aos pais não é apenas uma colocação para os “recém adultos”, para os que acabaram de adquirir maioridade e que precisam sair de casa para fazer sua vida que, sabemos, não se faz à sombra dos pais. “Pai” e “mãe” simbolizam quaisquer figuras às quais damos espaço em nossas vidas para nos trazer segurança, que não nos façam desejar sair do ninho, do aconchegante ninho da dependência, da não autonomia, da não escolha, e até... do “não à dor”. Segundo renomados psicanalistas o ser humano é um ser de carência originária, ser de falta, que, em todas as suas relações, busca, inconscientemente, o ventre, o seio materno.
Dizer “adeus” implica por vezes em deixar tanto conforto para trás...! Talvez em deixar ouvidos, conversas – e até conselhos truncados –, significa deixar tudo o que, aparentemente, representa o que de melhor a vida poderia dar, parecendo até que não haveria nada melhor na existência! O “adeus” é desconfortante, incomoda, confronta. Diz respeito também a idéias, conceitos, tudo pronto e acabado, tudo colocado no colo, “comidinha na boca”, melhor: “papinha” – alimento que nem precisamos mastigar.
Dê “adeus” às opiniões sobre você! Encontre o que você acha a seu respeito, melhor, encontre certezas suas (mas também depare-se com as dúvidas). Fundamente suas ideias, deixe fardos que te deram para carregar.
O “adeus” traz a aparência de coisa [momentaneamente] triste. A dor provocada pelo “adeus” parece severa, sádica. Mas na verdade, é apenas irônica. A ironia socrática não tinha o tom de “humor negro” ou sarcástico ao qual fazemos inferência hoje em nosso vocabulário. A ironia socrática era interrogativa – nada além que seu significado etimológico: “interrogação”. A dor então trazida pelo “adeus” é irônica porque questionadora, porque proposta de metanóia, de nova vida, de novas possibilidades, de “adeus” mesmo à arrogância de uma vida sabida, cheia de felicidade, de paz [aparente!], de amor, de harmonia consigo... Que palavrinha rica! Adeus. Breve retirada, breve retirada de um “tudo construído” para uma realocação, realocação no tudo construído e não dado, “tudo construído”, constituído, pensado, elaborado e reelaborado (e sempre aberto a uma nova e repetida ordenação) por si mesmo, por experiências próprias e individuais propostas pela vida. Difícil? Sim!!! – muitas e na maior parte das vezes. Aliás, re-elaboração envolve “labor”, labuta, trabalho. Isso mesmo! Ninguém disse que seria fácil, o próprio Jesus afirmou que teríamos aflições no mundo (Jo 16,33b)! E o bom ânimo, onde fica? O bom ânimo vem de saber que o trabalho será bem feito e trará grande satisfação uma vez entregue a ele com afinco, com desejo de ver a obra realizada, projetos realizados, vida refeita, ou feita.
Por que nos retemos tanto no “não ‘adeus’”? Numa expressão mineira: “Uai, porque é difícil, sô!”. Mas extremamente necessário, pois só cresce na vida quem um dia aprende a dizer “adeus”! Só cresce quem aprende que o “adeus” não é eterno, é só momentâneo, mesmo que cercado de desconstruções. Já pensou que tudo pode ser refeito e de um modo melhor ainda? Ao que você necessita dizer “adeus” em sua vida? Meu abraço fraterno com o desejo de coragem!
Suelen Nery dos Santos
16∕02∕2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Analogia entre o Silêncio de Abraão e o Mito de Sísifo (narrativa bíblica x narrativa Albert Camus)


  Abraão foi o “pai da fé”. Sendo o “eleito de Deus e o herdeiro da promessa de que todas as nações seriam abençoadas na sua posteridade, [...] só obteve o favor na velhice, depois de grandes dificuldades” (Kierkegaard, 1979). Nessa atitude consiste sua fé. Tais são as palavras de Johannes de Silentio, pseudônimo de Kierkegaard, com respeito à postura de Abraão: “[...] Abraão acreditou e guardou firmemente a promessa a que teria de renunciar se houvesse vacilado. Teria dito então a Deus: Porventura não é da tua vontade que meu desejo se realize; renuncio a meu voto, o único que contava para a minha felicidade; minha alma é reta e não guarda secreto rancor pela tua recusa. Não teria sido esquecido por isso, muitos se teriam salvo por seu exemplo, mas nunca chegaria a ser o pai da fé. Porque é grande renunciar ao mais querido voto, mas maior ainda é mantê-lo depois de o ter abandonado. Grande é alcançar o eterno, mas maior ainda é guardar o temporal depois de a ele ter renunciado” (Kierkegaard, 1979).
Mesmo diante de sua impossibilidade e da impossibilidade de sua esposa Sara, apesar dos cabelos brancos, pois ambos eram já adiantados em idade, não poderia esperar que seu desejo, que era também o de Sara, se cumprisse. Mas foi “suficientemente jovem para desejar ser pai, [...] pois a fé manteve neles o desejo” (Kierkegaard, 1979). “Sara foi escarnecida na sua terra”, o tempo passava porém, finalmente, quando contemplada a promessa, após setenta anos de espera, a prova, implicando “tão curta alegria da fé satisfeita e ainda, [...] ele seria o instrumento da própria infelicidade”.
Mediante essa essencial colocação é que se pode reter à questão do silêncio do “pai da fé”. A provação (a de sacrificar seu único e tão esperado filho a Deus) era tal que infligidora de um voto de silêncio, pois o absurdo era quem falava e falava mais alto, no entanto, falava somente a Abraão. E o absurdo “é o critério negativo daquilo que é mais elevado do que a compreensão e o conhecimento humanos” (Gouvêa, 2000), e, por conseguinte, como tal, angustiante e perturbador.
O segredo de Abraão conservava então a angústia como dor de “ser incapaz de tornar-se compreensível para os outros” (Gouvêa, 2002), ele se sabia ininteligível. Nesse sentido, a agonia decorria do fato de não poder falar para perceber a abertura de todos, para poder universalizar-se como os três heróis retomados por Silentio: Agamenon, Jefté e Brutus, os quais podiam “explicar racionalmente seus terríveis atos de sacrifício” (Gouvêa, 2002). “A fé e a obediência de Abraão pareceriam loucura para aqueles em seu redor” (Gouvêa, 200), sua fé não era passível de transmissão. Todavia, essa fé o conduziria ao assassinato de seu próprio filho, do tão esperado “filho da promessa”.
O silêncio de Abraão “seria constantemente perturbado pelas exigências da ética” (Kierkegaard, 1979), de modo que não poderia gozar de seu silêncio, do silêncio de ter recebido de maneira privada uma ordem divina. Era o acontecimento da passagem do ético ao religioso, salto de Abraão, visto o fato de implicar na “relativização do universal e a elevação do particular” (Gouvêa, 2002). E há ainda algo a ser apreendido na questão além da incompreensão diante do geral, segundo Gouvêa. Ela gira em torno do fato de que se Abraão acrescentasse “que ele acreditava em virtude do absurdo” seria tomado, além de parricida, como insano.
No tocante à perturbação causada pela prova, Abraão suscita a importância do indivíduo. Assim expressa Gouvêa: “Nos Discursos que acompanham Temor e Tremor Kierkegaard afirma que ‘cada pessoa em todas as idades tem sua luta e sua prova espiritual, sua aflição, sua solidão na qual é tentada, sua ansiedade e impotência...’. [...] Para Kierkegaard cada indivíduo é uma exceção, pois todos e cada um de nós é um indivíduo singular perante Deus, e nenhum de nós pode se apoiar na universalidade no que tange a nossa relação com a existência”.
            Quanto a essa existência, que pode ser dita individual e solitária, pode-se relembrar o mito de Sísifo de Albert Camus: “Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. [...] vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície” (Camus, 2004).
            Isso remete a que, para Camus, há a impossibilidade de o homem encontrar o sentido. O mito de Sísifo caracterizava “um trabalho inútil e sem esperança que podia exprimir a situação contemporânea” (Camus, 2004). Pode ser que o absurdo da existência de Camus tenha semelhança com a análise de um verdadeiro cristianismo a que se propõe Silentio Kierkegaard, em virtude da “recusa a todas as fugas”. Sísifo só podia contar consigo mesmo. Essa era a condição de Abraão.
            No entanto, assim como Sísifo não se deixava vencer pela queda da pedra, não permitindo a vitória do rochedo por todas as vezes em que refazia o percurso, Abraão também não se deixou vencer pela angústia a que teve de enfrentar. Não tomou seu silêncio como o faria um esteta, ele fez a escolha – a de enfrentar – e a decisão não lhe proporcionaria nada transitório, pelo contrário, era decisão por fé, certeza sob a qual sabia: “terei Isaac de volta”. A caminhada para Morija se fazia de dor, mas também de alegria, e isso tendo em vista sua crença, “a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis” (Camus, 2004).
            A percepção do silêncio de Abraão envolve a solidão, todavia, talvez se possa dizer, uma alegria silenciosa. Sua prova era como o rochedo de Sísifo: sua questão e, como tal, sua fé na repetição. O sigilo de Abraão envolvia, portanto, um misto de sensações humanas. Concomitante ao fato de se saber incompreensível, havia o absurdo de sua fé – o que o faz herói, o que o faz cavaleiro da fé, o que o faz aquele que realiza o movimento em direção ao infinito, mas com retorno ao finito! Todavia, não se podia perder de vista que o movimento, mesmo que em direção ao infinito, é solitário... Quantas vezes não nos encontramos assim em nossa existência?! Todavia, é preciso enfrentá-la, “recusando todas as fugas”, para, no fim, obter a gloriosa alegria, mesmo que silenciosa!
Suelen Nery dos Santos - 05122010